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Uma Ideia de Justiça
Teatro Nacional São João
de Isabel Minhós Martins
Texto escrito para um espetáculo de Joana Providência, a seu convite, Uma Ideia de Justiça nasce de uma pergunta-mãe: "O que é a justiça?" Com a ninhada de perguntas dadas à luz, Isabel Minhós Martins conduz-nos por um percurso de dezasseis "quadros", onde a interrogação maior recai sobre o próprio corpo. "O corpo manifesta-se/ Escutemos o que tem para nos dizer." Através dele e dessa escuta, conta-se a história da luta pela justiça ao longo dos tempos, desse "rugido misterioso" que não nos abandona: "um leão? uma revolução? que rugido é este?" Tão narrativo quanto poético, interrogativo e solto, Uma Ideia de Justiça dá espaço à reflexão e à imaginação. Primeiro livro desta coleção dedicado aos públicos mais jovens, destina-se afinal aos leitores de todos os tamanhos que gostem de perguntas por companhia, perguntas para fazer caminho.
Uma Ideia de Justiça -
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Primavera Selvagem
Teatro Nacional São João
de Arnold Wesker
tradução e prefácio de Ana Luísa Amaral
A peça tem três personagens: Gertie Matthews, uma actriz, Samson Martin, um arrumador de carros de dezanove anos, e Kennedy Phillips, assistente de direcção da companhia de teatro, com cerca de trinta anos. Há ainda uma quarta personagem, nomeada e presente na acção da peça, mas invisível para o público, e sem direito a falas: Tom, o filho adoptivo de Gertie, que irá morrer no final do primeiro acto, naquela que é a mais pungente cena de toda a peça. Todas as personagens são vítimas de um qualquer tipo de discriminação: Gertie porque é mulher, Samson e Kennedy porque são negros, e Tom porque é portador de trissomia 21. A problemática da discriminação está presente ao longo de toda a peça, na consciência do papel que a linguagem desempenha na perpetuação de estereótipos e na manutenção de ideologias. O mesmo é dizer na consciência de como a linguagem faz e desfaz o mundo.
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UBU
Teatro Nacional São João
de Alfred Jerry
tradução e notas de Luísa Costa Gomes
Dom Ubu: Oh! Oh! Oh! E então, já acabaste? Agora começo eu: torção do nariz, arrancanço dos cabelos, penetração do pauzinho nas onelhas, extracção do cérebro pelos calcanhares, laceração do traseiro, supressão parcial ou mesmo total da espinal medula (se ao menos assim se conseguisse tirar-lhe os espinhos do carácter), sem esquecer a abertura da bexiga natatória e por fim a grande degolação renovada de São João Baptista, tudo isto tirado das Santíssimas Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, organizado, corrigido e aperfeiçoado pelo aqui presente Mestre das Finanças! Convém-te assim, ó minha seresma? Tradução e notas Luísa Costa Gomes.
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O Café
Teatro Nacional São João
de Carlo Goldoni
tradução de Isabel Lopes e Fernando Mora Ramos
posfácio de Fernando Mora Ramos
No final, Dom Márcio não está arrependido de nada. Sente-se incompreendido, só isso. Não é uma criatura que procura regenerar-se. Vai continuar a ser a "trombeta da comunidade", o coscuvilheiro, o intriguista, já não em Veneza, mas noutro sítio qualquer. Eugénio não muda nada: transporta sempre aquele entusiasmo pelas coisas, pelo jogo, pelas mulheres, vejo-o como um Peter Pan depravado, alguém que se recusa a entrar na vida adulta. Vitória amadurece: percebe no fim que aquele amor não era assim tão perfeito como imaginara, cresceu, era uma rapariga no início e no final é já uma mulher. É certo que Ridolfo representa a moralidade dominante, mas é uma moral que é sistematicamente contrariada e colocada sob tensão no confronto com as outras personagens; mas também ele evolui: vai perdendo a compostura, até se tornar violento. A haver evolução, ela faz-se não no sentido da regeneração mas da desilusão, da crispação. Não há regeneração possível, os casais vão continuar a enganar-se e a reconciliar-se, e o jogo, com ou sem batota, vai prosseguir. A peça não nos propõe uma resolução, um final feliz, uma moralidade e nem tão pouco uma verdade. A verdade aqui reside nas pulsões, que são secretas, que são do domínio do não-dito, do não-figurado.
Giorgio Barberio Corsetti Manual de Leitura O Café, TNSJ, 2008
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Emilia Galotti
Teatro Nacional São João
de Gotthold Ephraim Lessing
tradução e prefácio de João Barrento
[Emilia Galotti] é uma das poucas obras "modernas" fria e clara, sem os excessos já românticos do próprio Werther [de Goethe] do seu tempo; de uma obra que coloca a situação trágica sob a luz da modernidade possível na época: a da escolha da morte livre, e não do suicídio (a língua alemã distingue mais claramente entre as duas coisas). Por razões éticas, e não por sujeição a um qualquer "destino". É a paradoxal, já o dissemos afirmação do sujeito burguês na pessoa de uma personagem de mulher à primeira vista (e durante quase toda a acção, à excepção do final) apagada e distante, sem presença e dependente. Mas Emilia, como Werther, revela a força das suas fraquezas ao mostrar (contra a ideologia dominante da família patriarcal transformada em microcosmo que espelha a própria sociedade) que não se nasce nem se morre apenas por um determinismo biológico, por obra e graça de um destino imponderável (antigo) ou radicado no próprio carácter (moderno, shakespeariano), mas por decisão.
João Barrento Do Prefácio
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Terno e Cruel
Teatro Nacional São João
de Martin Crimp
tradução de Pedro Galiza
prefácio de Maria Sequeira Mendes
No início de Terno e Cruel (2004), uma mulher segura uma almofada branca, mais tarde são-lhe oferecidos crisântemos brancos, e no final alguém lê que "a vergonha e a verdade vão vestir de branco" e abandonar os mortais. O branco é terno e cruel, símbolo de alvura e de luto. Reescrevendo Traquínias, de Sófocles, no rescaldo da Guerra do Iraque, Martin Crimp desdobra os destinos de Dejanira e Héracles nas personagens Amelia e General, assombrados pela causa e efeito de um genocídio contemporâneo algures na África subsariana. Desenham-se dois universos aparentemente distintos o da tragédia doméstica e o da guerra , que se confrontam no exílio de uma casa temporária, um não-lugar, um espelho da falência moral de um mundo movido a mentiras. E o amor? Em Terno e Cruel, o amor é uma arma de destruição em massa, um aguilhão oculto perto do coração.
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Palco Assombrado
Teatro Nacional São João
de Marvin Carlson
Tradução de Paulo Faria e Prefácio de Regina Guimarães
"Entre os estudiosos de Ibsen é habitual dizer-se que todas as peças dele se poderiam intitular Os Espectros. [] Podemos alargar esta observação, dizendo que todas as peças de teatro se poderiam intitular Os Espectros, já que um dos aspectos universais do teatro, tanto no Oriente como no Ocidente, é o seu carácter fantasmagórico, o sentimento de retorno, a impressão inquietante mas inescapável, exercida sobre os espectadores, de que esta-mos a ver o que já vimos antes. [] Todas as culturas teatrais reconheceram este cariz espectral, este sentimento de que algo regressa no teatro, e, como tal, as relações entre teatro e memória cultural são profundas e complexas. Assim como podemos dizer que todas as peças de teatro mereceriam o título Os Espectros, com igual pertinência podemos afirmar que todas as peças constituem um jogo em torno da memória." marvin carlson O teatro é uma prática assombrada em todas as suas dimensões: texto, corpo, encenação, palco. Neste livro, vemos melhor como convivem tantos fantasmas na tradição dramática ocidental e oriental, e na memória dos espectadores.
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Airbnb & Nuvens
Teatro Nacional São João
de Luísa Costa Gomes
A peça é um palimpsesto. Arqueologicamente, a camada mais antiga é muito antiga, composta a partir das ruínas de projectos imaginados nos idos de noventa, inseridos, reconfigurados e rescritos em 2015 na intriga do elevador. Naquele tempo, vivíamos o regime do terror da dívida e estávamos bastante empenhorados. O mote era a fatalidade do empreendedorismo para os pobres e do conluio com o Estado para as empresas com poder de alavanca. Em 2019, a realidade objectiva das penhoras não melhorara muito, em alguns casos até se agravara (sobretudo em questões de dívidas pequenas no crédito ao consumo), mas não estava já no centro do pesadelo. O centro era uma almofada de nuvens e o airbnb.
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Lorenzaccio
Teatro Nacional São João
de Alfred de Musset
tradução, prefácio e notas de Alexandra Moreira da Silva
Lorenzaccio (1834) projecta-se contra o pano de fundo de dois passados: o da decadência política e social da Florença do século XVI, "afundada em vinho e em sangue", e o das perturbações provocadas pela Revolução de Julho de 1830, que instala na França revolucionária o liberalismo e a desigualdade política. Obra-prima do Romantismo francês, é a peça mais ambiciosa de Musset sobre o poder, os seus bastidores e a sua (i)legitimidade. Um retrato em movimento de revoluções falhadas, suspensas, por cumprir. Do interior destas convulsões emerge Lorenzo de Médici, depreciativamente chamado "Lorenzaccio". Uma personagem "escorregadia como uma enguia", a um tempo cínica e idealista, "objecto de vergonha e de infâmia", duplo de Brutus e émulo de Hamlet, de quem herda a eloquência, a melancolia, a indecisão. "Acordei dos meus sonhos, nada mais; digo-te apenas que é perigoso sonhar."
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Histórias do Teatro
Teatro Nacional São João
de Tobin Nellhaus
tradução
Um verdadeiro atlas do teatro, que desafia a uma viagem pelo mundo das artes cénicas. Com um panorâmica transnacional e transtemporal - alheia a fronteiras conceptuais -, Histórias do Teatro desvenda de que forma esta arte se tornou central nas culturas da Ásia, de África, das Américas e da Europa. Das práticas ancestrais às expressões mais disruptivas da actualidade, este livro integra os factores sociais, políticos e tecnológicos na caracterização de uma arte múltipla, instável e vibrante.
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O Barrete de Guizos e Outras Peças
Teatro Nacional São João
de Luigi Pirandello
tradução e prefácio de Simão do Vale Africano
Luigi Pirandello nasceu em Agrigento, pequena cidade siciliana, tendo um conhecimento íntimo e próximo das pessoas que habitavam aquele interior pouco povoado e árido. A maneira como constrói os personagens a partir da sua própria concepção da língua é, para mim, o factor mais interessante, de entre vários, da sua obra. (...) Os heróis de Pirandello não têm capa, nem espada, muito menos armadura, são frágeis, têm muitas vezes uma necessidade quase educada de se expressarem. São pessoas "possíveis", por vezes feias ou velhas, que se deparam constantemente com a vida como quem se depara com uma ironia. Esta, chamemos-lhe de forma simplória, simplicidade caracterial é uma força comunicacional à qual o autor se agarra com avidez. (Do prefácio)
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Contra o Teatro Político
Teatro Nacional São João
de Olivier Neveux
tradução, prefácio e notas Edmundo Cordeiro
"O livro de Olivier Neveux é a favor do teatro político. E, desde logo, porque o teatro é uma zona a defender. É esta a sua política. [] O livro é contra uma certa relação política-teatro e contra uma certa relação teatro-política; contra uma certa intenção da política para com o teatro, e do teatro para com a política. E, fundamentalmente, o que o livro dá a pensar, dando a ver os seus nós, são aspectos da política cultural a questão política e o sensível, sendo que uma e outro podem ter um papel nas discussões tácticas dos nossos dias. Portanto, é um livro em que a política e o teatro são pensados, ambos, contra o teatro político. Convém ler. Sobretudo, a política não pode estar não está certamente na tematização, ou na reflexão enquadrada; está, sim, na acção, incluindo a do teatro. E o teatro não pode estar não está certamente na reprodução útil, realista, do existente; está, sim, no lugar onde a poesia não chega (Genet), e que é intensamente político também. [] É um texto de intervenção, diz o autor. É essa a sua força: levanta as pedras da calçada."
Edmundo Cordeiro, do prefácio
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